Quem já alugou apartamento no Brasil chega aos Estados Unidos esperando negociar o valor do aluguel. O primeiro choque costuma ser outro: antes de discutir preço, é preciso preencher uma application, pagar uma taxa que não volta mesmo se você for recusado, e autorizar por escrito uma consulta ao seu histórico de crédito. Cada etapa tem vocabulário próprio, e duas leis mudaram nos últimos dois anos exatamente nos pontos que mais pesam no bolso de quem chega agora.
A application fee: paga antes de saber se você foi aceito
Pedir para visitar um apartamento nos Estados Unidos não custa nada, mas preencher a application costuma custar. A taxa cobre a checagem de crédito e de antecedentes feita por uma agência terceirizada, e não é devolvida mesmo se o proprietário recusar seu cadastro. Na Califórnia, esse valor tem teto legal: para 2025, o limite ajustado pela inflação sob o Código Civil §1950.6 é de US$ 65,14 por candidato adulto, reajustado todo ano. Fora da Califórnia não existe teto federal, e o valor costuma variar de US$ 30 a US$ 100 por adulto. Pergunte o número exato antes de assinar qualquer formulário, porque a maioria dos prédios cobra por pessoa, não por apartamento.
O depósito de segurança encolheu na Califórnia em 2024
Até junho de 2024, um proprietário californiano podia cobrar até três meses de aluguel de depósito num apartamento mobiliado e dois meses num apartamento vazio. A partir de 1º de julho de 2024, a Lei AB 12 alterou o Código Civil §1950.5 e limitou o depósito a um mês de aluguel, mobiliado ou não, para a maioria dos proprietários. A exceção fica só para pequenos proprietários (pessoa física, ou LLC formada só por pessoas físicas, dona de no máximo duas propriedades com até quatro unidades no total), que ainda podem cobrar até dois meses. Se um anúncio em Los Angeles ou São Francisco pedir três meses de depósito hoje, vale perguntar em qual dessas duas categorias o proprietário se enquadra, porque a diferença representa milhares de dólares parados.
| Tipo de imóvel | Antes de 1º de julho de 2024 | A partir de 1º de julho de 2024 |
|---|---|---|
| Mobiliado | até 3 meses de aluguel | 1 mês (2 meses para pequeno proprietário) |
| Não mobiliado | até 2 meses de aluguel | 1 mês (2 meses para pequeno proprietário) |
Nova York: catorze dias para devolver, sem margem de erro
Em Nova York, a General Obligations Law §7-108, em vigor para contratos assinados a partir de 14 de julho de 2019, obriga o proprietário a devolver o depósito, junto com uma lista detalhada de qualquer desconto, em até catorze dias após a saída do inquilino. Não há prazo de tolerância nem justificativa por processo interno demorado: perder o prazo de catorze dias faz o proprietário perder o direito de reter qualquer valor do depósito, mesmo que existam danos reais no apartamento. Se a demora for considerada intencional, o inquilino pode processar por até o dobro do valor retido. Vale guardar o comprovante da data exata de entrega das chaves, porque é a partir dela que a contagem começa.
O credit check exige sua assinatura, e gera direitos se você for recusado
Antes de puxar seu histórico de crédito, o proprietário precisa do seu consentimento por escrito: é uma exigência do Fair Credit Reporting Act (FCRA), a lei federal que regula esse tipo de consulta. Se a resposta for negativa por causa do relatório, a lei obriga o envio de um Adverse Action Notice, um aviso formal que cita o nome da agência que fez a checagem e informa dois direitos seus: pedir uma cópia gratuita do relatório em até 60 dias, e contestar qualquer informação que você considere errada. Quem acabou de chegar ao país e ainda não tem histórico de crédito americano costuma ser recusado por falta de histórico (no credit history), não por histórico ruim. A diferença importa porque muda a negociação: em vez de disputar uma nota, o argumento vira oferecer um depósito maior, um co-signer com crédito local, ou alguns meses de aluguel adiantados.
Lease de doze meses ou mês a mês: a escolha muda o preço
O contrato padrão nos Estados Unidos se chama lease e dura, na maioria dos casos, doze meses corridos. Sair antes do prazo (break the lease) costuma gerar multa: um valor fixo, dois ou três meses de aluguel, ou a obrigação de continuar pagando até o proprietário encontrar um novo inquilino, dependendo do que o contrato prevê e do estado. Alguns prédios oferecem month-to-month, um contrato renovado mês a mês sem prazo fixo, mas cobram entre 10% e 25% a mais de aluguel por essa flexibilidade. Para quem acabou de chegar e ainda não sabe se vai continuar na mesma cidade, vale perguntar "what's the penalty for breaking the lease?" antes de assinar qualquer coisa: é a pergunta que muda o cálculo entre um lease de doze meses mais barato e um month-to-month mais caro, mas sem risco de multa.
Utilities: o extra que não aparece no anúncio
"Utilities" é a palavra guarda-chuva para luz, água, gás e coleta de lixo. Internet e TV a cabo quase sempre vêm à parte, cobradas por outro provedor. Segundo dados do U.S. Energy Information Administration (EIA), a conta média de eletricidade residencial nos Estados Unidos girou em torno de US$ 145 a US$ 155 por mês no fim de 2025, variando bastante por clima e época do ano: verão no Arizona ou no Texas custa mais por causa do ar-condicionado, e apartamentos pequenos em climas amenos tendem para a ponta mais baixa dessa faixa. Perguntar "are utilities included?" na primeira conversa evita a surpresa de descobrir, já na primeira fatura, que o valor do aluguel não era o custo real de morar ali.
Pets: quando a taxa é ilegal, e quando essa proteção enfraqueceu em 2026
Pelo Fair Housing Act, um animal de serviço treinado não é tratado como pet: o proprietário não pode cobrar pet deposit, pet rent ou taxa mensal, nem aplicar restrição de raça ou peso, mesmo em prédios com política de "no pets". A regra vale de forma consolidada para cães-guia e outros animais de serviço reconhecidos. Para animais de suporte emocional (ESA), a proteção ficou mais frágil: em 22 de maio de 2026, um memorando interno do Departamento de Habitação dos EUA (HUD) revogou a presunção automática de que negar acomodação a um ESA configura violação da lei, segundo organizações de defesa de direitos de pessoas com deficiência que acompanham o caso, como a DREDF. Na prática, quem depende de um ESA, diferente de um cão-guia ou outro animal de serviço propriamente dito, pode encontrar mais resistência de proprietários daqui em diante. Vale checar se o estado onde você vai morar tem proteção própria, independente da regra federal.
O walk-through é a prova que vale em qualquer estado
"Walk-through" é a vistoria feita com o proprietário, ou sozinho com uma câmera, registrando o estado do apartamento antes de você se mudar. Fotografar cada arranhão, mancha ou equipamento quebrado nesse momento, e enviar as fotos por e-mail ao proprietário no mesmo dia, é o que separa um depósito devolvido de uma discussão sobre danos que já existiam antes da sua chegada. Na Califórnia, o Código Civil §1950.5(f) garante ao inquilino o direito de pedir uma vistoria inicial antes da saída definitiva, com prazo para consertar pequenos problemas antes de o proprietário calcular o desconto final. Esse direito só vale se você pedir; ele não é automático.
- Peça o número exato da application fee por escrito antes de preencher qualquer formulário; ela normalmente não é reembolsável nos EUA.
- Pergunte em qual categoria da AB 12 o proprietário se enquadra se o depósito pedido passar de um mês de aluguel na Califórnia.
- Guarde a data exata da entrega das chaves; em Nova York, ela é o ponto de partida do prazo de catorze dias.
- Fotografe cada dano existente no walk-through e envie por e-mail ao proprietário no mesmo dia, nunca só na memória do celular.
Duas frases que traduzem mal e custam dinheiro
"All included" quase nunca significa o que um brasileiro imagina. Perguntar "the rent is 1500 dollars, all included, right?" costuma render um "sim" que, na prática, ainda deixa de fora luz, água, vaga de garagem e taxas mensais de amenidades, que juntas passam de US$ 300 com facilidade. A pergunta que funciona é mais específica: "does the 1500 include utilities, parking, and any monthly fees?", item por item, nunca em bloco. Outro deslize comum é usar "actually" para dizer "atualmente": em inglês, "actually" significa "na verdade", usado para corrigir algo que foi dito antes, e quem quer dizer "no momento presente" precisa de "currently" ou "right now". Dizer "I actually live in a studio" em vez de "I currently live in a studio" muda o sentido da frase justamente na parte que mais importa para quem está descrevendo sua situação de moradia ao futuro locador.
Nenhuma dessas regras substitui o vocabulário da conversa em si: a application, a visita, a negociação da vaga de garagem, o pedido de conserto quando o aquecimento para de funcionar no meio do inverno. O guia inglês para alugar apartamento: da visita à assinatura do contrato treina as 29 frases dessa sequência inteira, com áudio nativo, incluindo as perguntas que o corretor faz de volta. Antes da primeira visita, vale fixar os termos com o deck de vocabulário de moradia em inglês, e guardar o vocabulário de documentos em inglês para os formulários que aparecem tanto na application quanto no contrato de aluguel.
Este artigo é o complemento de Inglês para quem vai morar nos EUA: o vocabulário dos primeiros 30 dias, que cobre a mudança inteira, do banco ao médico. Quem ainda está decidindo o nível de inglês necessário para se virar sozinho nessa negociação encontra a régua certa em Níveis A1, A2, B1, B2: o que significa cada um do CEFR: alugar apartamento com autonomia normalmente pede um B1 confortável, não fluência.
Referências
- AB 12 (2023–2024) — California Legislative Information
- Civil Code Section 1950.5 — California Legislative Information
- General Obligations Law § 7-108 — New York State Senate
- Using Consumer Reports: What Landlords Need to Know — Federal Trade Commission
- Assistance Animals — U.S. Department of Housing and Urban Development

