Antes de precisar dizer "ho mal di testa" no balcão da farmácia, quem vai morar na Itália precisa resolver um passo anterior: entrar no sistema público de saúde, o Servizio Sanitario Nazionale, o SSN. Sem essa inscrição, cada consulta com o médico de família e cada remédio de uso contínuo saem pelo preço particular, e o atendimento fica limitado ao que é urgente.
Este guia cobre os degraus dessa entrada: o distretto da ASL, a tessera sanitaria, o tesserino STP para quem ainda não tem documento regular, o medico di base, a marcação pelo CUP, o ticket e a farmácia. O vocabulário da farmácia em si, frase por frase e com áudio, já está treinado em italiano na farmácia: como pedir remédio e explicar o sintoma. E quem ainda não resolveu o permesso di soggiorno encontra o trâmite desse documento em italiano para a cidadania: o glossário da questura, do comune e do permesso di soggiorno, porque a inscrição no SSN depende dele.
Uma exceção antes de tudo: quem tem cidadania italiana, como boa parte dos ítalo-brasileiros, se inscreve no SSN como qualquer italiano residente, sem permesso di soggiorno e sem contribuição anual. O resto deste guia vale para quem entra na Itália como estrangeiro.
O distretto da ASL: onde a inscrição começa
Na maioria das ASL, a inscrição é feita pessoalmente no distretto, a unidade territorial da Azienda Sanitaria Locale que atende o bairro onde você mora. Algumas regiões já aceitam agendamento ou pedido online; o site da sua ASL diz qual é o caso. Segundo a Agenzia delle Entrate, o que decide se a inscrição é obrigatória e gratuita é o tipo de permesso di soggiorno: trabalho, família, asilo e outros motivos listados em lei dão direito à inscrição obrigatória.
Quem tem permesso válido por mais de três meses fora dessas categorias, como estudante ou residente eletivo, pode se inscrever por vontade própria, pagando uma contribuição anual. Desde a Lei 213/2023, as ASL informam um mínimo de € 2.000 por ano para a maioria dos casos, calculado sobre a renda, com valores menores para categorias específicas, como o estudante sem outra renda além de bolsa pública e sem dependentes (€ 700). Confirme o valor do seu caso no distretto antes de pagar: a tabela é da ASL, não deste artigo.
| Documento | Detalhe |
|---|---|
| Documento de identidade | Passaporte ou carta d'identità |
| Permesso di soggiorno | Ou a ricevuta do pedido, se ainda estiver em andamento |
| Codice fiscale | Emitido pela Agenzia delle Entrate |
| Autocertificazione di residenza | Declaração de residência; algumas ASL pedem também comprovante de endereço |
A lista acima é a base comum, mas cada região acrescenta o que quiser: há ASL que pedem contrato de trabalho, outras que pedem o comprovante de pagamento da contribuição, no caso da inscrição voluntária. Confira a lista no site da sua ASL antes de ir, para não perder a viagem. O codice fiscale é pré-requisito da inscrição, não resultado dela: sem ele, o distretto não abre o cadastro.
A tessera sanitaria chega pelo correio e copia o prazo do permesso
A tessera sanitaria é o cartão que identifica o paciente em qualquer ponto do sistema, do consultório à farmácia. Quem a emite não é a ASL: é a Agenzia delle Entrate, dentro do sistema Tessera Sanitaria do Ministero dell'Economia e delle Finanze. Para quem já tem permesso, o cartão é enviado pelo correio para o endereço cadastrado depois da inscrição no distretto. Ele serve também como cartão do codice fiscale, e é por isso que o órgão fiscal cuida da emissão.
Para cidadão estrangeiro, a validade da tessera acompanha a do permesso di soggiorno: quando o permesso vence, a inscrição no SSN e o cartão vencem junto. Renovou o permesso, volte ao distretto com o documento novo para renovar a inscrição; o cartão novo segue de novo pelo correio.
Quem está à espera de regularização pode se inscrever com o codice fiscale numérico provisório, apresentando na ASL a ricevuta do pedido. Nesse caso, segundo a Agenzia delle Entrate, a tessera não é enviada pelo correio: a ASL entrega só um certificato sostitutivo, com o número de identificação do cartão. Guarde a ricevuta usada para tirar o permesso di soggiorno na questura, porque é ela que abre essa porta.
O tesserino STP para quem ainda não tem documento regular
Quem está na Itália sem situação migratória regularizada não fica de fora da saúde pública. O artigo 35 do Testo Unico sull'immigrazione (D.Lgs. 286/1998) garante ao estrangeiro sem permesso os cuidados urgentes e essenciais, incluindo gravidez, saúde da criança, vacinação e doenças infecciosas. O acesso é pelo tesserino STP, sigla de Straniero Temporaneamente Presente, pedido no distretto da ASL. Para quem não tem recursos, o atendimento é sem custo, salvo o ticket, cobrado nas mesmas condições de um italiano.
O mesmo artigo diz que o atendimento não gera denúncia à autoridade, salvo nos casos em que a denúncia é obrigatória também para um cidadão italiano. Em outras palavras: ir ao pronto soccorso ou ao distretto sem documento não leva a pessoa à questura. O tesserino vale seis meses e pode ser renovado enquanto a situação não muda.
Escolher, e trocar, o medico di base
A inscrição inclui a escolha do medico di base, o médico de família que funciona como primeira porta de entrada do sistema. O distretto mostra os médicos com vaga na sua zona; a escolha pode ser trocada depois, com um novo pedido na ASL. Para crianças, o sistema usa outro profissional, o pediatra di libera scelta: de zero a seis anos a criança tem direito ao pediatra, e dos seis aos catorze a família pode escolher entre o pediatra e o medico di base.
Consultas com o medico di base são gratuitas para quem está inscrito. É ele quem emite a impegnativa, a guia de encaminhamento para exame ou especialista, sem a qual a rede pública não marca a maior parte das consultas especializadas. Pedir direto uma consulta com especialista, sem essa palavra na ponta da língua, é um erro frequente de quem ainda está se acostumando com o sistema.
Marcar consulta pelo CUP
Com a impegnativa em mãos, marcar exame ou especialista passa pelo CUP, o Centro Unico di Prenotazione. O nome é o mesmo em toda a Itália, mas o telefone e o site mudam conforme a região. A receita traz um código, o NRE, que o atendente pede logo no começo da ligação; tenha o papel ou o SMS em mãos antes de discar.
O ticket sanitário varia por região: confira antes de pagar
Nem tudo no SSN é gratuito. Exames e consultas com especialista cobram um ticket sanitario, o copagamento que varia por região e por tipo de serviço. Algumas isenções são nacionais: pelo sistema Tessera Sanitaria, o código E01 isenta crianças de até seis anos e pessoas com mais de 65 anos quando a renda da família fica abaixo de € 36.151,98 por ano.
Existe ainda a esenzione per patologia, para quem tem doença crônica reconhecida: o medico di base diz se o seu caso dá direito a ela e como pedir. Como o valor do ticket e as isenções regionais mudam de uma ASL para outra, a fonte confiável antes de qualquer pagamento é o site da ASL do seu distretto, nunca o número ouvido de outro brasileiro.
Vacinas obrigatórias e a escola do seu filho
O decreto-legge 73/2017, conhecido como Legge Lorenzin e convertido pela Lei 119/2017, tornou obrigatórias e gratuitas dez vacinas para crianças e adolescentes de zero a dezesseis anos. Na matrícula, a escola verifica a situação vacinal, pedindo o comprovante à família ou conferindo com a ASL; se faltar alguma dose, a família é chamada.
A exigência não pesa igual em toda idade. Para creche e pré-escola, de zero a seis anos, a vacinação em dia é condição para frequentar. No ensino obrigatório, a partir dos seis anos, a falta de vacina não impede a matrícula: a ASL convoca os pais para uma conversa e, se a vacina não for feita, a lei prevê multa de € 100 a € 500. Quem traz a caderneta de vacinação brasileira deve levá-la ao pediatra ou ao distretto: a ASL avalia o que já foi feito e diz quais doses faltam.
Na farmácia: ricetta elettronica, ricetta rossa e ricetta bianca
Inscrito no sistema, a farmácia é onde o vocabulário aparece de verdade. Hoje a receita do SSN é quase sempre eletrônica: o médico registra a prescrição no sistema e o paciente recebe um promemoria, em papel, por SMS ou por e-mail, com o código NRE. Na farmácia, basta esse código e a tessera sanitaria. A velha ricetta rossa, de papel vermelho, ainda aparece, mas virou exceção.
| Tipo de receita | O que muda |
|---|---|
| Ricetta elettronica (SSN) | Promemoria com código NRE; o remédio sai pela tabela pública |
| Ricetta rossa | A versão em papel da receita do SSN, cada vez mais rara |
| Ricetta bianca | Médico particular ou remédio fora do SSN; preço integral, e também pode ser eletrônica |
| Senza ricetta | Só o que é vendido livremente, sem obbligo di ricetta |
A farmácia também resolve boa parte da urgência leve antes de qualquer consulta: o farmacêutico orienta sintomas simples e indica o generico, o equivalente mais barato com a mesma substância ativa. O vocabulário dessa conversa inteira, do sintoma ao horário da dose, está treinado frase por frase em italiano na farmácia: como pedir remédio e explicar o sintoma, incluindo a farmacia di turno, a farmácia de plantão que cobre as noites e os domingos.
Fixar o nome das partes do corpo e dos sintomas comuns antes de precisar deles no balcão muda o ritmo dessa conversa. O deck vocabulário de saúde em italiano treina essas palavras em sessões curtas, com repetição espaçada, sem a pressão de estar doente enquanto aprende.
112, guardia medica e pronto soccorso: qual usar
Para emergência de verdade, ligue 112. Segundo o Ministero della Salute, a ligação é gratuita e funciona até de celular sem chip, bloqueado ou sem crédito. Nas regiões com Centrale Unica di Risposta, o atendente encaminha para polícia, bombeiros ou ambulância; onde a central ainda não existe, quem atende o 112 são os Carabinieri, que repassam a chamada. O 118 também continua funcionando para emergência médica; onde há Centrale Unica, a ligação passa por ela.
O pronto soccorso é o pronto-socorro do hospital: é para lá que vai quem tem urgência real, e a ordem de atendimento segue a gravidade, não a chegada. Para o que não é emergência mas não pode esperar o consultório abrir, à noite e nos fins de semana, existe a guardia medica, oficialmente continuità assistenziale. Em toda a Lombardia, Piemonte, Toscana e na província de Trento, e em partes de outras regiões, como Roma e província, ela atende pelo número europeu 116117, gratuito. Diferente do 112, o 116117 não funciona de celular bloqueado. Onde ele ainda não chegou, o número da guardia medica está no site da ASL.
O erro clássico: essere em vez de avere
O tropeço mais comum de quem chega à farmácia é trocar o verbo: dizer "sono caldo" em vez de "ho caldo" para "estou com calor". O italiano descreve sensação física com avere, não com essere: ho caldo, ho freddo, ho fame, ho sete, ho la febbre, ho mal di testa. "Sono caldo" fala de temperatura ao toque, como se a pessoa fosse um objeto quente, e ainda carrega um duplo sentido que rende risada no balcão, não atendimento.
Outras armadilhas para quem fala português aparecem em falsos cognatos em italiano: 30 palavras que todo brasileiro confunde. Cada uma dessas frases fica mais fácil treinada com calma antes de precisar dela. O Lingua Flowing treina esse vocabulário com áudio nativo e avaliação de pronúncia por IA. Quem está começando encontra o caminho em como aprender italiano do zero: guia para iniciantes; o nível A1 é gratuito.
Antes de pagar contribuição, ticket ou qualquer taxa, ou de contar com um prazo deste guia, confira na fonte oficial da lista abaixo e no site da ASL do seu distretto. As regras de saúde na Itália mudam por região e por lei orçamentária, e o balcão da ASL tem a última palavra.
Referências
- Agenzia delle Entrate — iscrizione al Servizio Sanitario Nazionale
- Agenzia delle Entrate — tessera sanitaria e cittadini stranieri
- ASL Roma 6 — iscrizione volontaria, contributo Legge 213/2023
- Normattiva — D.Lgs. 286/1998, art. 35 (assistenza sanitaria per gli stranieri)
- Sardegna Salute — pediatra di libera scelta, de 0 a 14 anos
- AUSL Parma — iscrizione volontaria, importi per categoria
- Sistema Tessera Sanitaria — esenzione per reddito (E01)
- Normattiva — decreto-legge 73/2017 (prevenzione vaccinale)
- Ministero della Salute — la ricetta elettronica
- Ministero della Salute — numero unico europeo 112
- Ministero della Salute — 116117, numero europeo per le cure non urgenti

